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GESTA-MPGrupo de Estudos Sociais, Tiflológicos e Associativos |
Dr.
Fernando Bívar em entrevista
Existem dois momentos diferentes. Deixar de ver é sempre um grande choque, que varia conforme o nível de desenvolvimento cultural ou intelectual do indivíduo. Quanto mais desenvolvido o indivíduo for nesses aspectos, mais sente o choque. E, muitas vezes, depende também do que é que a pessoa viu, daquilo que quer ver e do que faz. Por exemplo, se se trata de alguém que lê, é mais difícil aceitar a situação. Devido a isso, mais importante do que quantificar o grau de visão é saber aquilo que o doente consegue fazer com a que tem. A classificação de cegueira passa muito por aí, devendo o médico ensinar a fazer algo, tendo em conta a baixa visão.
Há sempre pressão quando se fala de graus de visão. Mas, desde que uma pessoa cega, mesmo havendo fases melhores e piores, a reacção depende de cada caso; se a situação é brusca ou lenta, etc, etc.
A situação de ser invisual e passar a ver não é assim tão frequente e só acontece em alguém que já tinha tido visão. Mas a recuperação e o grau atingido, que dá para ter uma vida equilibrada, faz com que exista uma grande alegria. Há casos com piada. Um dos últimos que me aconteceu foi com um senhor com mais de 90 anos, que andava muito ansioso para ser operado e, quando isso aconteceu, a família ficou preocupada porque ele podia ver de mais, porque era muito minucioso e nada lhe escapava. Outra vez tive um doente que quando foi operado exclamou: “Ai, que bom, já posso ir ver a cara da viúva que mora ao meu lado”. São sempre situações emocionantes, em especial quando as pessoas são novas.
Numa pessoa que tinha visão e que a perdeu, as áreas da memória visual vão ser utilizadas na área sensitiva, pelo que existe uma maior percepção do mundo exterior. Um cego, para falar sobre o mundo exterior, não fala as imagens mas das suas vivências: fala do que fez, do que aconteceu... Diria que a visão é um órgão de luxo, um tele-sentido, porque podemos viver perfeitamente sem ele. Para mim, o sentido mais importante é o tacto, que é algo que vem desde nascença. Mais tarde, se uma pessoa cega, acaba por usá-lo, assim como à audição, para colmatar essa falha.
Depende do mundo que cada um vê. Chego ao ponto de, muitas vezes, fazer a prescrição de óculos só para uma pessoa ver a ombreira de uma porta (a diferença entre o claro e o escuro).
Há sempre uma forma. Por exemplo, tenho o caso de uma senhora que viu os contornos de um objecto que tinha rodas, e daí descortinuou que aquilo era um carro. São estes pormenores de um objecto que se procura salientar na estimulação visual das crianças que vêem mal. Ao vermos, estamos a construir tudo e seleccionamos o que queremos, numa situação automática em que suprimimos a parte desnecessária. Seria um cansaço cerebral se assim não fosse.
As pessoas fazem a sua vivência. Temos aqui um psicólogo cego de nascença e, às vezes, esquecemo-nos de que ele não consegue ver, porque faz e conta exactamente tudo como nós, utilizando até as mesmas expressões do “eu vi”, “eu li”. Tem uma vivência igual à nossa, com as mesmas sensações, embora tenha algumas dificuldades noutras coisas. Por exemplo, o cego que nunca viu terá problemas em imaginar uma cor, concebendo-a consoante aquilo que lhe ensinaram, numa lógica em que o vermelho é igual ao quente, etc. Mas consegue aproximar-se em muitos aspectos da norma visual.
Estou ligado a esta área da baixa visão há 15 anos e já mudou alguma coisa desde então, embora estejamos muito longe do ideal. Não nos podemos esquecer de que as pessoas com este tipo de problemas não são ‘os outros’ – é o nosso vizinho, o nosso familiar. Estamos numa sociedade em que estes problemas tendem a aumentar e, infelizmente, ainda há muita gente que não presta atenção a isso.
Tem-se feito alguma coisa, mas existem situações caricatas. Por exemplo, os semáforos com som que existiam nalgumas zonas de Lisboa foram retirados porque os vizinhos reclamavam que faziam muito barulho. Se pensarmos assim, o que é que uma pessoa há-de fazer? No metropolitano também andam a tirar os pitons, outra peça de sinalização. E mesmo no emprego as pessoas com pouca visão são convidadas à reforma quando podiam perfeitamente continuar a trabalhar com o auxílio de determinados aparelhos, que podem ser uma simples lupa ou um determinado ‘software’.
Existem, embora não seja possível definir o ideal. O melhor é o GPS, ou a colocação de microfones que falam conforme as dúvidas que um cego tem, em determinadas zonas das cidades. Mas nunca haverá um sistema óptimo, e é um disparate andarem a tirar coisas que demoraram muito tempo a montar. Assim não vamos a parte nenhuma.
As situações que impressionam sempre mais um oftalmologista têm a ver com crianças às quais se tem de tirar um olho. Para o médico, são sempre esses os casos mais dramáticos.
O oftalmologista tem sempre dificuldade em saber prescrever a bengala branca. Encontrar o momento ideal para o fazer é sempre complicado, até porque há sempre um choque. E muitas vezes também há situações em que as pessoas pensavam que não existia solução e acontecem ‘milagres’.
Com algum cepticismo, principalmente na parte da electrónica, de que tanto se tem falado nos últimos tempos. Mas não sou contra. O que acontece é que as pessoas falam disso mas ainda estamos longe. Falar em ver implica falar em 32 áreas corticais, e é complicado criar imagem sem abarcar todas elas. Uma pessoa pode definir contornos, através de pontos, mas ver é algo muito mais complexo, é uma construção da união de todas as sensações que nós recebemos no momento, que se constrói e depende da vivência de cada um. O sucesso total dessas práticas ainda está muito longe.
Vai ser difícil. Como é que vamos transformar estímulos artificiais em naturais e biológicos? Não sei. Penso que no meu tempo já não vai ser, mas também não posso dizer que tal nunca acontecerá.
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Última actualização efectuada em 19 Abril 2003
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